Por Silvia Barreto e Anderson Firmino
Da Revista Mais Santos
Para quem gosta do carnaval das es- colas de samba, não há nada mais incômodo do que uma bateria em silêncio, um pavilhão guardado e uma ala de baianas sem seus belos rodopios. Foram tempos difÃceis, por conta da pandemia de Covid-19. Agora, 26 meses depois, a Marquês de SapucaÃ, no Rio, e o Anhembi, em São Paulo receberão as agremiações de seus Grupos Especiais na próxima sexta (22) e sábado (23).
Para o sambista da Baixada Santista, contudo, fica um gosto estranho. Em San- tos, não haverá desfile este ano – a decisão foi anunciada no mês passado pela Prefeitura. Mas, como o som dos tamborins fala mais alto, o jeito vai ser migrar para acompanhar de perto a folia dos principais centros do PaÃs. Confira histórias de personagens que vão seguir o samba aonde ele ecoar. O Carnaval do recomeço os espera.
Nas malas de Josenildo Lins dos Santos, popularmente conhecido por Mita Lins, 43 anos, frentista, morador do Guarujá, o que não falta é o amor pela G.R.E.S. Estação Primeira de Mangueira. “Será o primeiro Carnaval pós pandemia. Vou com meus amigos de sempre que são Rogério Guedes, Fabiana Freitas, Anderson Bernardes, Mislaine e Adriano Gonzaga. Meu sonho é desfilar, mas tem algo maior que é ver o espetáculo e ver a Mangueira desfilarâ€, descreve o carnavalesco.
Neste ano, a Mangueira contará com Marquinho Art’Samba como intérprete do enredo “Angenor, José & Laurindoâ€. Nas cores verde e rosa, a Comissão de Carnaval terá a presença de Wesley e Evelyn Bastos como mestre e rainha de bateria.
A viagem é programada com antecedência pelo grupo. Mita embarca dia 19 e já tem programados os passeios pela Cidade Maravilhosa nos dias que antecedem a festa. “Vamos para o terreirão do samba: na Lapa, onde tem muita roda de samba. Tem também o Galo Cantou, outra roda de samba muito conhecida, e eventos na Mangueira na antevéspera do Carnavalâ€, conta.
A escolha pelo Rio de Janeiro teve inÃcio em 2016 e serviu como um “remédio†para se recuperar do diagnóstico de depressão. “Fui acompanhar a escolha do samba da Mangueira que tinha o tema ‘Só com a ajuda do Santo’. Depois fui acompanhar o desfile em 2017â€, relembra.
Mita integra há 11 anos a escola Grêmio Recreativo Cultural Escola de Samba Mocidade Amazonense, em Guarujá. Ele lamenta a suspensão do desfile. “Eles adiaram e não deram data. Fica difÃcil as escolas terem um projeto. Agora só para o ano que vem. Eu estou para ajudar a escola. A vitória não vem de você levantar o caneco. Ali é uma consagração quando acontece, mas a nossa maior vitória é a escola estando na avenida. Quando soa a sirene, ali começamos a chorarâ€, comenta, emocionado.
A ansiedade para a chegada do Carnaval também é registrada por Fabiana Freitas do Carmo, 40 anos, lÃder de frente de Caixa. A paixão pelo Carnaval sai de Guarujá e faz escalas entre São Paulo e Rio de Janeiro. “Meu primeiro pavilhão, minha paixão, é a Mocidade Amazonense. Depois vem a Mangueira e a Vai-Vai, mas meu coração é verde e brancoâ€, enfatiza.
Em razão de compromissos profissionais, a estada no Rio de Janeiro será curta, mas o suficiente para manter a tradição de acompanhar de perto sua escola desfilando na avenida. “Vi pela primeira vez, em 2016, minha escola ser campeã nos desfiles oficiais com o samba ‘Menina dos olhos de Oya’. Desde então não parei mais de irâ€, relembra.
Tudo pronto para a festa
Em São Paulo e no Rio de Janeiro, onde os desfiles ocorrerão nas mesmas datas, está praticamente tudo pronto para a passagem das escolas de samba. A ansiedade já toma conta dos apaixonados pelo samba. Agora é esperar a chegada do momento mais importante.
Os desfiles do Rio serão transmitidos pela TV Globo para todo o Brasil, menos o Estado de São Paulo, que acompanha as escolas de samba no Anhembi.
O carnaval da Sapucaà é cercado de expectativa. Com uma avenida pronta, recuperada após obras de infraestrutura, todos os caminhos levarão à passarela do samba, onde doze escolas brigarão pelo tÃtulo.
“Estamos trabalhando a pleno vapor. As escolas estão prontas para entrar na avenida, afinando agora os últimos detalhes que, com os ensaios técnicos, precisam ser ajustados. No mais, temos certeza de que faremos um grande desfile. Será, sem dúvidas, o Carnaval da redenção, do reencontroâ€, comemora Jorge Perlingeiro, presidente da LIESA (Liga Independente das Escolas de Samba).
Na capital dos paulistas, também há contagem regressiva para a festa dos sambistas. “É muito bom ver nossa cidade voltar a sua rotina, depois dos anos difÃceis que passamos. O Carnaval de São Paulo é um patrimônio e merece uma linda festa, mas com todos os cuidados e sempre preservando a segurança e a vidaâ€, diz o prefeito paulistano, Ricardo Nunes.
Os enredos
Rio de Janeiro
Começando pela atual campeã, a Viradouro traz o seu: “Não há tristeza que possa suportar tanta Alegriaâ€, uma ode ao Carnaval, que conta as histórias de um pierrô. Já a Grande Rio entoa “Fala Majeté! Sete Chaves de Exúâ€, enquanto a Mocidade traz seus tambores no embalo do “Batuque ao Caçadorâ€.
A Beija-Flor chega com “Empretecer o pensamento é ouvir a voz da Beija-Florâ€. O Salgueiro endossa o discurso de respeito à s lutas pela igualdade, com “Resistênciaâ€. A Mangueira exalta três Ãcones centenários: Angenor, José & Laurindo – no caso, Cartola, Jamelão e Delegado.
A Portela traz mistérios de Ãfrica e da árvore da vida: “Igi Osè Baobáâ€. A Vila Isabel chega para exaltar o seu grande expoente: “Canta, canta, minha gente! A Vila é de Martinho†– o contrário também é válido. A Unidos da Tijuca acena com uma viagem extraordinária. “Waranã – A Reexis- tência Vermelhaâ€, traz a lenda do guaraná, de acordo com o socialismo indÃgena. A São Clemente aposta na lembrança do comediante Paulo Gustavo: “Minha vida é uma peça†promete emocionar a avenida.
A ParaÃso de Tuiuti renova a proximidade com a negritude e enaltece o pensamento: “Ka rÃba tà ÿe – Que nossos caminhos se abramâ€. Por fim, a Imperatriz Leopoldinense marca seu retorno ao Grupo Especial com “Meninos eu vivi… Onde canta o sabiá, onde cantam Dalva & Lamartineâ€.
São Paulo
As escolas de samba apostam em sambas-enredo polÃticos e com discursos sociais. Pelo menos seis agremiações do Grupo Especial optaram por este tipo de temática.
A Gaviões da Fiel, chega com “Basta!â€, que irá falar da situação do PaÃs. A Colorado do Brás apresentará “Carolina: A Cinderela Negra do Canindéâ€, sobre Carolina Maria de Jesus, escritora, poetisa e compositora negra. Já a Mocidade Alegre rende homenagens a outra negra ilustre: Clementina de Jesus. O enredo traz a história da sambista que ajudou a tornar o ritmo popular.
Visando resgatar a memória africana, a Vai-Vai apresenta o enredo “Sankofaâ€. A escola pretende levar a cultura e valores da ‘Mãe Ãfrica’. Com discurso voltado para a ecologia, a Mancha Verde escolheu falar das águas. “Planeta Ãgua†pretende discutir sua importância para a humanidade.
Já a Tom Maior vai “importar “o sertão para o Anhembi. Com o enredo “O Pequeno PrÃncipe do Sertãoâ€, a escola quer uma nova visão para a história de Antoine de Saint-Exupéry. Em “Afoxé de Oxalá: No Cortejo de Babáâ€, a Ãguia de Ouro irá falar de Oxalá, orixá ligado à criação do mundo.
Para falar do café no Brasil, a Acadêmicos do Tatuapé aposta em um interlocutor para a história do grão no paÃs. Trazendo o enredo “Carnavais… De lá Pra Cá, o Que Mudou? Daqui Pra Lá, o Que Será?â€, a Acadêmicos do Tucuruvi irá versar sobre a história do Carnaval e o futuro da festa. Atrás do primeiro tÃtulo, a Unidos de Vila Maria trará o enredo “O Mundo Precisa de Cada um de Nós. A Vila é Porta-Vozâ€.
A Dragões da Real traz “Adoniranâ€, com a história do clássico sambista paulista. Buscando sua permanência no Grupo Especial, a Barroca Zona Sul trará “A Evolução Está na Sua Fé… Saravá, Seu Zéâ€, sobre Zé Pilintra, uma das mais destacadas entidades de cultos afro-brasileiros.
Com o enredo “Sanitatemâ€, que significa “cura†em latim, a Rosas de Ouro falará sobre os diferentes rituais de cura. Já a Império de Casa Verde trará o enredo “O Poder da Comunicação: Império, o Mensageiro das Emoçõesâ€, sobre comunicação numa homenagem ao influenciador Carlinhos Maia.
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