Por Anderson Firmino, Silvia Barreto e Ted Sartori
Da Revista Mais Santos
Cada virar de páginas esconde uma história, uma possibilidade, um mundo de ideias e emoções. A descoberta do ato de ler é um desafio que nos acompanha desde os primeiros passos. Ouvir os relatos na voz doce dos pais é um presente e um start na formação de um leitor. Mas, para chegar no ponto ideal, o caminho é longo.
Mais do que a leitura pura e simples, a capacidade de interpretação deve ser aprimorada a todo momento. É ela quem vai nos abastecer de subsÃdios para as melhores tomadas de decisão ao longo da vida. Uma pesquisa importante sobre o tema acende o alerta. Mas, felizmente, iniciativas de pessoas e entes públicos ajudam a renovar as esperanças em um Brasil leitor.
Queda do número de leitores preocupa
Mais de 4 milhões de pessoas deixaram de ser leitores. O dado é preocupante, já que segue em possÃvel crescimento. A análise tem como base o levantamento feito com dados apurados pela pesquisa Retratos da Leitura no Brasil. De 2015 para 2019, a porcentagem de leitores no Brasil caiu de 56 para 52 .
Coordenadora da pesquisa, Zoara Failla destaca a preocupação com esses dados e uma possÃvel evolução de forma negativa. “Houve uma queda que preocupou. Estávamos em uma elevação de 6 pontos percentuais e esperávamos manter essa curvaturaâ€, explica, citando um dos vilões para a queda: a internet.
O ponto de partida para este cenário ser deflagra do está na formação do leitor e despertar o interesse pela leitura. A pesquisa mostra, ainda, uma série de dificuldades de leitura. Entre os entrevistados, 4% disseram não saber ler, outros 19% leem muito devagar; 13% não tem concentração suficiente para ler e 9 não compreende a maior parte do que leem.
“Temos problemas dentro da escola, pois não há professores leitores, tem problema em relação ao acesso, não se universalizou as bibliotecas escolares. Hoje, temos mais de 60% das escolas sem biblioteca. Portanto, a maior parte das crianças brasileiras não têm acesso a um livro de literatura que ela gostaria de ler e tem polÃticas públicas que não avançamâ€, descreve Failla, apontando os resultados positivos das escolas com acesso aos espaços de leitura em vestibulares concorridos pelo PaÃs.
A pesquisa anterior mostrou que estudantes de nÃvel superior e as classes A e B tinham um percentual elevado de leitores, sofrendo uma queda expressiva. O estudo aponta as atividades desenvolvidas por esse público em suas horas vagas e o uso da internet – redes sociais – é o principal motivo para o afastamento.
A pesquisa revela que 86 desses leitores usam com frequência o WhatsApp (eram 76% em 2015). As redes sociais (Facebook, Instagram ou Twitter) também parecem roubar o tempo para os livros, pois foram citadas por 64% daqueles com nÃvel superior, enquanto o percentual dos que leem livros no tempo livre foi de 42% (eram 46% em 2015).
“O reflexo dessa queda do percentual dos leitores é o resultado do desencontro de ações. É a escola, o acesso, o material, polÃtica pública e o professorâ€, descreve.
Este levantamento identificou um aumento de percentual de leitores na faixa dos 5 aos 10 anos que leem porque gostam, tendo como principais influenciadores a mãe e os professores.
“Essa garotada vai se perdendo pelo caminho, porque quando ele entra no Fundamental II a queda é muito grande. A partir dos 11 anos, já começa a concorrer com a internet e os games. Cai muito dos 14 aos 17 anosâ€, ressalta a coordenadora da pesquisa.
Este último levantamento foi realizado antes da pandemia do novo coronavÃrus, não refletindo, portanto, os impactos da emergência sanitária na leitura no PaÃs, sendo feitas 8.076 entrevistas, presencialmente, com mais de 80 questões em 208 municÃpios entre outubro de 2019 e janeiro de 2020. A coleta de dados foi encomendada ao Ibope Inteligência. A pesquisa acontece de 4 em 4 anos, sendo a próxima prevista para ir a campo em 2023. (SB)
Olhos de educadora
Autora de 11 livros, presidente da Unisanta e do Semesp (Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo), Lúcia Teixeira define o livro didático como uma ferramenta essencial para a educação, principalmente em um paÃs carente de leitura como o Brasil.
“Embora não seja o único recurso, o livro didático ainda é um dos mais utilizados pelos professores da educação básica, distribuÃdo à s escolas públicas de educação básica das redes federal, estaduais, municipais e distrital e também à s instituições de educação infantil comunitárias ou filantrópicas sem fins lucrativos e que sejam conveniadas com o Poder Público. Ter acesso ao livro didático é um direito do aluno da Educação Básica no Brasil, garantido por diversos dispositivos legais. O Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), vinculado ao MEC, coordena a aquisição e a distribuição do PNLD para cerca de 30 milhões de estudantes de todo o paÃs, executando um dos maiores programas de distribuição de livros do mundoâ€, detalha.
Ainda que a educação online tenha ganhado mais importância, em razão da pandemia e da tecnologia, o livro didático foi na mesma esteira, na visão da presidente da Unisanta. Essas obras, lembra Lúcia, devem ser utilizadas pelos alunos para leituras, pesquisas, interpretação e outros exercÃcios, como apoio à aprendizagem tanto no ensino presencial, virtual ou hÃbrido. E não é só.
“Um outro ponto que eu quero chamar a atenção é que os educadores também podem utilizar o livro didático para desenvolver o pensamento crÃtico de seus alunos e reforçar a importância nesses tempos pandêmicos, de ficarem atentos à s fake news e procurarem sempre conteúdos sérios e de qualidadeâ€, observa Lúcia.
A internet e seu vasto mundo também obrigou o livro didático a se reinventar em alguns aspectos, pois o público final do livro didático, lembra a presidente do Semesp, é constituÃdo por crianças e jovens, uma geração nativa digital e que lida a toda hora com redes sociais, Google, plataformas e outras tantas vertentes da rede.
“Para se ter uma ideia, o relatório de 2020 da consultoria McKinsey, sobre as principais tendências e oportunidades na área de educação para o Brasil, revelou que o YouTube é a principal ferramenta de educação no PaÃs. Nove a cada 10 usuários da plataforma de vÃdeos no Brasil têm o hábito de estudar e pesquisar por conteúdos educativos. Isto representa quase 90 milhões de estudantes acostumados a utilizar o YouTube com este propósito. Para esse novo mundo, nossas crianças e jovens também precisam aprender a valorizar a criatividade, a ética e as habilidades socioemocionaisâ€, contextualiza.
A experiente autora afirma que, apesar do maior envolvimento com a tecnologia, boas histórias com aventura e imaginação continuam prendendo a atenção dos jovens leitores, desde que incentivados em casa e nas escolas. Desta forma, a resposta acontece com o interesse pelas publicações.
“Geralmente, meus temas são sobre questões que me incomodam na realidade e que eu quero mudar; refletem um pouco e complementam as minhas ações como cidadã, mulher, educadora e psicóloga. Escrevendo, fazendo palestras e intervenções em vários locais e meios, eu posso me comunicar e dar voz a outras pessoas que não são vistas ou ouvidas, cujos dramas cotidianos estão aos nossos olhos, mas não são percebidosâ€, afirma.
Escrever faz parte da vida de Lúcia Teixeira. Faz bem para a alma da educadora, representando o encontro com seus sentimentos, anseios e olhares para o universo. Tanto que está produzindo o 12º livro, chamado “Confidências modernistasâ€, que traz documentos inéditos, à luz do centenário da Semana de Arte Moderna e 200 anos da Independência do Brasil.
“Trata-se de um balanço do pensamento de Pagu (PatrÃcia Galvão, uma das musas do movi- mento e sobre a vida de quem Lúcia se debruçou há tempos) e de outros modernistas sobre o perÃodo em que viveram, tão reverenciado e pouco conhecidoâ€, define a presidente da Unisanta. O lançamento está previsto para outubro deste ano. (TS)
Escolas investem na cultura do ler
As bibliotecas das escolas deixaram, há muito, de serem vistas como um lugar ruim para os alu- nos. Nestes espaços, a chance de conhecer novos mundos, histórias e, sobretudo, aprimorar a leitura e sua capacidade de absorção de conteúdo, fez com que os espaços se transformassem em aliados de professores. A educação “virou uma página†importante do conhecimento de crianças e jovens.
“Antigamente, se mandava a criança para a biblioteca da escola como um castigo. Não é mais assim. Na verdade, um castigo seria não poder ir à biblioteca. Os alunos têm que sentir que, ali, é um lugar de prazer, onde se busca um universo diferenteâ€, avalia Maria Cristina Zinezi, chefe da Seção de Biblioteconomia e MultimÃdia (SEBIBLI) da Secretaria Municipal de Educação de Santos.
Ela ressalta a importância do trabalho dos auxiliares das bibliotecas nas escolas. São eles os ges- tores de um espaço que acolhe os novos leitores, ávidos por novas histórias. Além disso, reafirma a importância da parceria com os professores, em um movimento conjunto que benéfica os alunos.
“Nossos alunos, de maneira geral, são leitores mais ávidos. Existe competição entre eles, de quem pega mais livro emprestado por mês. A gente tem o momento da “biblioterapiaâ€, que utilizamos para trabalhar emoções, como foi no caso da pandemia. A leitura também possibilita trabalhar alguns sentimentos das crianças. E o funcionário não pode receber os alunos sozinho. Ele não é o professor, não tem que tomar conta da sala. O funcionário tem que fazer uma atividade em conjunto com o professor. A função dele é descobrir livros, que podem ajudar num determinado conteúdoâ€, frisa.
Cris Zinezi explica ainda que, em Santos, os alunos de 1º a 5º ano, os livros são “consumÃveisâ€, ou seja, o aluno vai escrever nele, vai levar para casa. É dele. Já os de 6º a 9º ano, que já é um público um pouquinho maior, tem uma capacidade maior de cuidar do livro, não precisa ficar escrevendo, já que a forma de trabalhar o conteúdo é um pouco diferente. E eles alunos usam, durante quatro anos, o livro, que vai passando de uma turma para outra. Por conta disso, a parceria com os pais e responsáveis é imprescindÃvel.
“Tem pais que são incrÃveis. A criança chega, já na primeira semana de aula, leva o livro para casa e, na semana seguinte, já traz tudo encapadinho. O ganho que nós tivemos, durante esse perÃodo de pandemia, foi um comprometimento muito grande de pais, até mesmo emprestando seu celular para o filho fazer aula, por exemplo. A gente percebe que os pais querem que as crianças evoluam. Em algumas escolas, fizemos as “gelotecasâ€, que não são para as crianças. Ficam do lado de fora, na frente da secretaria, para os pais pegarem livrosâ€, conta.
Outros entes públicos também apostam na importância da relação dos alunos e familiares com os livros. No caso do Estado, por exemplo, de acordo com a Secretaria de Educação (Seduc-SP), a região da Baixada Santista possui cerca de 120 salas de leitura em funcionamento. Todas as escolas estaduais da região desenvolvem trabalhos com foco em desenvolver e aprimorar a competência leitora dos estudantes.
Confira como funciona em outras cidades da Região – além de Santos, Guarujá, Bertioga, Mongaguá e São Vicente responderam ao pedido de informações da Reportagem.
Guarujá
A Prefeitura de Guarujá in- forma que a Secretaria de Edu- cação (Seduc) realiza uma série de ações na rede municipal de ensino e, entre elas, destaca:
Em março, será implantado o Projeto de Leitura de Obras do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) literário de 2020, para alunos do 6º ao 9º ano das escolas municipais que possuem ensino fundamental II. Nele, os alunos trabalharão em sala de aula, os livros adquiridos pelo Programa Nacional com rodas de leitura, pesquisas sobre o autor, atividades de encenação, entre outras atividades. Essa é uma ferramenta importante de suporte pedagógico, para professor e aluno no processo de ensino-aprendizagem, na qual fomenta a leitura e aborda as mais variadas áreas do conhecimento.
A rede municipal também utiliza o material didático do Programa CurrÃculo Paulista, que contempla as competências e as habilidades essenciais para o desenvolvimento integral dos estudantes, além de ter como fundamento as práticas sociais de leitura e escrita numa perspectiva de multiplicidade de linguagens. Variados gêneros textuais, adequados à s faixas etárias, ilustrações coloridas e chamativas e atividades contextualizadas que abrem um leque de possibilidades tanto para a prática docente, quanto para o desenvolvimento dos alunos.
Guarujá possui, hoje, duas bibliotecas e duas gibitecas centrais (localizadas na Rua Ceará, s/nº Vila Alice, e na Rua Quintino Bocaiúva, 183, Centro). Além destas, a Prefeitura mantém 17 bibliotecas e 11 gibitecas anexas às escolas da rede municipal.
Bertioga
A Secretaria de Educação informa que, embora o municÃpio não conte com Biblioteca Pública no momento, considera o livro didático um norteador dos processos de ensino e aprendizagem.
A pasta destaca que oferece à rede de ensino livros que atendem aos direitos de aprendizagens previs- tos pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC), proporcionando aos professores reflexão sobre a prática e organização de projetos que incentivem a leitura, bem como a importância do letramento.
A pasta acrescenta que todas as escolas municipais oferecem ambientes destinados à leitura, proporcionando às crianças momentos lúdicos que contribuem para o desenvolvimento do comportamento leitor.
Mongaguá
Mongaguá conta com a Biblioteca Central Jerônimo Barbosa Monteiro, localizada no Espaço Cidadão (Praça Jacoub Koukdjian, 16, 3º andar, Centro). O telefone é (13) 3448-7535. O horário de atendimento é das 8h30 às 16h30. A unidade conta com um acervo de cerca de 13 mil livros.
São Vicente
A Prefeitura, por meio da Secretaria de Educação (Seduc), informa que a data referente ao livro didático ratifica este material de suma importância no processo de aprendizagem dos alunos.
A rede municipal adota livros didáticos em todas as escolas da Cidade, além de fornecer os tÃtulos Aprova Brasil, para todo o Ensino Fundamental, e o EMAI (Matemática) e Ler e Escrever (LÃngua Por- tuguesa), voltados à s crianças do 1º ao 5º ano.
As escolas de São Vicente dispõem também de livros paradidáticos, além da Biblioteca Muni- cipal e, desde o ano passado, as “gelatecasâ€, que são geladeiras sem uso transformadas em uma biblioteca com livre acesso aos leitores.(AF)
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